Depois do sucesso na FLIP, Valter Hugo Mãe lança “O Século dos Imbecis”
Por Juliana Duarte
Depois de uma participação bastante concorrida na FLIP 2026, onde discutiu o papel da literatura diante das inquietações do mundo contemporâneo, o autor português Valer Hugo Mãe chega às livrarias brasileiras com O Século dos Imbecis (Biblioteca Azul), romance que mistura realismo mágico, humor e filosofia para refletir sobre um dos temas mais urgentes do nosso tempo: a crescente valorização da ignorância.
No novo livro, o autor cria uma fábula marcada pelo absurdo. O protagonista é Agilulfo, o excêntrico Marquês da Malandrinha, dono de uma característica tão curiosa quanto simbólica: quanto mais desce a montanha, mais burro se torna; quanto mais sobe, mais inteligente e lúcido fica. Em torno dessa ideia inusitada, o autor constrói uma narrativa repleta de paixões, invejas, ambições e solidariedade, transformando um pequeno vilarejo em um retrato das contradições da sociedade contemporânea.
A metáfora é clara, mas nunca simplista. Em vez de escrever um romance político ou um manifesto sobre a desinformação, Valter Hugo Mãe prefere recorrer ao fantástico para investigar por que, justamente na era da informação, tantas pessoas parecem escolher a superficialidade em detrimento do conhecimento. O romance questiona até que ponto a inteligência continua sendo um valor admirado em uma sociedade cada vez mais seduzida pelo espetáculo, pelo excesso e pela simplificação.
Como em seus livros anteriores, o autor evita respostas fáceis. Sua prosa lírica convive com momentos de humor afiado e observações profundamente humanas. Ao lado do Marquês, surgem personagens movidos por desejos, vergonhas, ganância e compaixão, enquanto as mulheres do vilarejo assumem um papel decisivo na transformação da história, reforçando uma característica recorrente na obra do escritor: personagens femininas fortes e moralmente complexas.
O romance também representa um momento importante na carreira de Valter Hugo Mãe. Segundo o próprio autor, a ideia nasceu há quase vinte anos, quando imaginou algumas costureiras vivendo em uma pequena vila. O projeto permaneceu inacabado por muito tempo, até amadurecer na forma desta alegoria sobre a estupidez, o conhecimento e a condição humana.
