“Primavera”: um livro delicado sobre a vida, a despedida e aquilo que sempre retorna

Por Ângelo Cláudio

Há livros infantis que encontram nas palavras mais simples uma maneira de abordar os sentimentos mais difíceis. Primavera, escrito por Carolina Moreyra e ilustrado por Odilon Moraes, pertence a essa categoria. Publicada pela Editora Joaquina, a obra acompanha uma família que vê seu cotidiano transformar-se com a chegada da estação das flores — e com as mudanças inevitáveis trazidas pelo tempo.

O quintal da casa é o centro da narrativa. Ali acontecem as conversas, as brincadeiras e os encontros entre diferentes gerações. A bisavó cuida da pequena bisneta, enquanto também recebe os cuidados dos demais familiares. Essa inversão delicada mostra às crianças que cuidar não é uma relação unilateral: em uma família, quem protege também pode precisar de proteção.

Com a chegada da primavera, lagartas surgem pelo quintal, especialmente no pé de manacá-de-cheiro. Depois aparecem os casulos. A transformação das lagartas em borboletas funciona como uma imagem poderosa para falar dos ciclos da natureza e da própria existência. Tudo parece seguir como nas primaveras anteriores, mas algo importante está prestes a mudar: a bisavó, que tanto gostava das borboletas, já não estará presente quando a primeira delas romper o casulo e iniciar seu voo.

Sem transformar a despedida em uma explicação excessiva, Carolina Moreyra constrói uma história sobre perda, memória e continuidade. A morte não é apresentada como um acontecimento isolado ou assustador, mas como parte de um movimento maior. As pessoas partem, porém deixam gestos, lembranças, histórias e afetos que continuam vivos nos que permanecem.

As ilustrações de Odilon Moraes ampliam essa dimensão emocional. Em vez de apenas reproduzir o que está escrito, elas criam pausas e silêncios nos quais o leitor pode observar aquilo que as palavras não dizem diretamente. Essa integração entre texto e imagem é uma característica marcante da parceria dos dois autores, que já produziram juntos mais de dez livros. Entre eles está Lá e aqui, obra premiada que também aborda uma transformação familiar pelo olhar da criança.

Formada em cinema pela London Film School e com experiência como roteirista, Carolina Moreyra demonstra especial habilidade para construir cenas visualmente expressivas. Odilon Moraes, por sua vez, é formado em arquitetura pela USP e possui uma trajetória reconhecida na literatura infantil brasileira. Essa combinação ajuda a explicar o cuidado com o ritmo, os espaços e a composição de cada página.

Com 44 páginas e formato de 21 por 24 centímetros, Primavera foi incluído entre os 30 Melhores Livros Infantis do Ano da Crescer 2026, segundo a Editora Joaquina. Mais do que um livro sobre o luto, é uma obra sobre a permanência do amor. Assim como as borboletas retornam ao jardim, algumas pessoas continuam conosco naquilo que aprendemos, recordamos e transmitimos às próximas gerações.