1929: Por dentro da maior crise da história de Wall Street

Por Ângelo Cláudio

Quase um século depois, a quebra da Bolsa de Nova York continua sendo lembrada como o momento em que a prosperidade dos anos 1920 terminou e o mundo mergulhou na Grande Depressão. Essa versão cabe nos livros escolares, mas deixa de fora uma questão decisiva: quem tomou as decisões que alimentaram a crise. E por que tantas pessoas inteligentes não conseguiram enxergar o desastre que se aproximava?

É essa dimensão humana que Andrew Ross Sorkin procura recuperar em 1929: Por dentro da maior crise da história de Wall Street — e como ela abalou o mundo. Publicado originalmente nos Estados Unidos em 2025, o livro chegou ao Brasil em junho de 2026 pela Portfolio Penguin, com tradução de Berilo Vargas, Pedro Maia Soares e Laura Motta. A edição brasileira possui 504 páginas. Segundo a editora, a pesquisa utiliza documentos como atas confidenciais do Federal Reserve e registros produzidos por pessoas que acompanharam Wall Street por dentro.

Sorkin já havia usado uma abordagem semelhante em Too Big to Fail, seu relato sobre a crise financeira de 2008. Jornalista do The New York Times, criador do DealBook e cocriador da série Billions, ele escreve sobre finanças como uma disputa entre pessoas submetidas a ambições, pressões políticas e interesses contraditórios. Em 1929, os gráficos cedem espaço às salas de reunião, às conversas reservadas e aos momentos em que uma decisão aparentemente racional contribuiu para ampliar o desastre.

Entre os personagens estão Charles “Sunshine Charlie” Mitchell, presidente do National City Bank; Thomas Lamont, sócio do J.P. Morgan; o empresário John Raskob; e o senador Carter Glass, que se tornaria associado às reformas do sistema bancário. Winston Churchill também surge na narrativa: estava em Nova York durante a turbulência e sofreu perdas em seus investimentos.

O livro contesta a ideia confortável de que tudo aconteceu de uma vez, em um único dia de pânico. Houve uma sequência de quedas, tentativas de estabilização e escolhas políticas que agravaram a situação. O crédito abundante e a especulação ajudaram a preparar o terreno, mas o crash não produziu sozinho a Grande Depressão. Tarifas protecionistas, desemprego crescente, contração econômica e respostas inadequadas contribuíram para transformar uma crise financeira em uma catástrofe mundial. Em entrevista à PBS, Sorkin definiu crédito e dívida como o combustível recorrente das grandes crises e lembrou que 1929 foi uma sucessão de colapsos, seguida por novos “dominós” econômicos e políticos. A entrevista está disponível no programa Firing Line.

Essa reconstrução interessa especialmente ao leitor contemporâneo porque o livro chega durante outra fase de entusiasmo tecnológico. As expectativas em torno da inteligência artificial, a popularização dos investimentos e a expansão de produtos financeiros de maior risco tornam inevitáveis as comparações com os anos 1920. Sorkin, contudo, evita afirmar que as duas épocas sejam idênticas. Seu ponto mais inquietante é outro: mesmo depois de sucessivas crises, investidores continuam convencidos de que desta vez os preços poderão subir indefinidamente.

O autor também recusa a explicação simplista de que toda especulação seja inútil. O capital direcionado a novas tecnologias pode financiar avanços reais. O problema aparece quando a expectativa de crescimento se combina com dívida excessiva, incentivos perversos e uma confiança que já não admite dúvidas. Em entrevista ao Brazil Journal, Sorkin recordou que Charles Merrill recomendou a saída do mercado em 1928 — e as ações continuaram subindo por meses, mostrando como identificar uma bolha é muito mais fácil do que prever quando ela estourará. Leia a entrevista.

1929 funciona, assim, menos como manual para antecipar a próxima quebra e mais como uma investigação sobre nossa incapacidade de reconhecer limites durante períodos de euforia. As tecnologias mudam, os produtos financeiros ganham novos nomes e as regulações são reescritas. A esperança de que a prosperidade dure para sempre permanece praticamente intacta.