Entrevista com o escritor Marco Antonio Gonzaga
Nesta entrevista, conversamos com o escritor, executivo e especialista em inovação Marco Antonio Gonzaga, um profissional que construiu uma trajetória singular ao unir tecnologia, estratégia de negócios e um profundo olhar sobre as relações humanas. Com mais de duas décadas de atuação no mercado de seguros e no ecossistema de insurtechs da América Latina, Gonzaga participou da transformação digital de um dos setores mais tradicionais da economia, liderando projetos pioneiros, desenvolvendo produtos inovadores e ocupando posições estratégicas em grandes empresas.
Mas sua história não se limita ao universo corporativo. Mestre em Administração pela PUC-SP, com formação executiva pela Thunderbird School of Global Management e pela Singularity University, ele também encontrou na literatura um espaço para refletir sobre as mudanças mais profundas da vida. Se em Insurtech Desvendado compartilha sua experiência na revolução tecnológica do mercado de seguros, em Ser Pai é uma Arte — Entre o pai que tive e o filho que tenho revela uma jornada muito mais íntima: a transformação da paternidade em um exercício consciente de presença, afeto e cura geracional.
Por que você decidiu se tornar escritor?
Eu não me tornei escritor por ambição literária. Me tornei escritor por necessidade de registro e de legado. Depois de mais de duas décadas liderando transformação digital no mercado de seguros e de viver a paternidade de forma intensa e consciente a partir dos 38 anos, percebi que duas experiências profundas da minha vida ainda não tinham sido traduzidas com honestidade e utilidade para outros homens. Ser Pai é uma Arte nasceu do desejo de quebrar ciclos e oferecer ferramentas reais de presença. Insurtech Desvendado nasceu da vontade de organizar o que aprendi sobre a revolução digital no setor. Agora, estou escrevendo sobre a influência dos algoritmos na educação porque sinto a mesma urgência: algo estrutural está acontecendo com a formação das crianças e quase ninguém está nomeando com a clareza necessária.
Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou ao escrever seu livro?
A maior dificuldade foi manter a tensão entre vulnerabilidade e utilidade. Em Ser Pai é uma Arte eu precisei expor feridas reais — a relação com meu pai, o processo de Alzheimer, o medo de repetir padrões — sem transformar o livro em confissão ou em autoajuda rasa. Já em Insurtech Desvendado o desafio foi outro: traduzir frameworks técnicos, cases internacionais e conceitos de Open Insurance e IA generativa para uma linguagem que tanto o corretor quanto o executivo pudessem aplicar no dia seguinte. Escrever com verdade emocional e, ao mesmo tempo, com precisão prática é um equilíbrio difícil. É exatamente esse equilíbrio que estou buscando novamente no livro sobre algoritmos e educação.
Como você vê sua carreira de escritor daqui a 10 anos? Quais os planos para os próximos livros?
Daqui a 10 anos eu quero ser reconhecido como o autor que conectou paternidade consciente, transformação digital e o impacto da tecnologia na formação das novas gerações. A Escola de Pai deve se consolidar como uma plataforma de referência com livros, cursos e mentoria. Os próximos livros devem aprofundar essa interseção: o que estou escrevendo agora sobre a influência dos algoritmos na educação é o primeiro passo. Depois dele, pretendo explorar a economia do cuidado e a construção de legados — como pais e líderes podem criar sistemas (familiares e empresariais) que sobrevivam a eles. A escrita continua sendo o centro, mas ela precisa alimentar comunidades, cursos e práticas reais.
Você está escrevendo um livro sobre a influência dos algoritmos na educação. O que te motivou a entrar nesse tema agora?
A motivação veio da observação diária. Como pai, eu vejo meu filho sendo constantemente moldado por sistemas que aprendem com ele em tempo real. Como profissional que passou mais de 20 anos trabalhando com dados, personalização e jornadas digitais, eu entendo a potência e o risco desses mecanismos. O que me inquietou foi perceber que a maioria das conversas sobre educação e tecnologia ainda está presa em “tempo de tela” ou “proibir ou liberar”. Quase ninguém está discutindo com profundidade quem está formando o olhar, o desejo e a capacidade de atenção das crianças. Esse livro nasce dessa urgência.
Como a sua experiência como pai e como executivo se cruzam nesse novo livro?
Elas se cruzam de forma quase inevitável. No mercado de seguros e insurtech eu aprendi a usar algoritmos para prever comportamento, personalizar ofertas e aumentar engajamento. Em casa, eu vejo os mesmos princípios sendo aplicados sobre o desenvolvimento cognitivo e emocional do meu filho. A diferença é o que está em jogo. Quando o algoritmo personaliza um produto, o adulto ainda mantém algum poder de escolha. Quando personaliza a formação de uma criança, esse poder diminui radicalmente. O livro existe exatamente na interseção dessas duas experiências: a do executivo que entende a máquina e a do pai que sente seus efeitos.
Em Ser Pai é uma Arte você fala muito sobre presença e autoridade parental. Como os algoritmos desafiam esse conceito na prática?
Eles desafiam de forma silenciosa e eficiente. O algoritmo oferece uma presença constante, responsiva, sem atrito e altamente reforçadora. Muitos pais, cansados, acabam terceirizando a regulação emocional, o entretenimento e até parte da formação do filho para as plataformas. O resultado é uma autoridade parental diluída. Em Ser Pai é uma Arte eu defendia que o pai precisa ser o principal mediador da experiência da criança. Agora o desafio ficou maior: como exercer essa mediação quando existe uma inteligência artificial competindo pela atenção do filho com uma sofisticação que nenhum ser humano consegue igualar sozinho?
A Escola de Pai nasceu da necessidade de ajudar pais a exercerem uma paternidade mais consciente. Como esse novo livro se encaixa nesse projeto?
Ele é a continuação natural e necessária. A Escola de Pai trabalha presença, regulação emocional, exemplo e micro-rituais. Só que de nada adianta ensinar o pai a estar presente se, enquanto ele não está olhando, um algoritmo está moldando o filho com precisão milimétrica. O livro traz a dimensão algorítmica para dentro do projeto. Ele não substitui o que já fazemos. Ele atualiza a conversa para a realidade de 2026 e dos próximos anos.
Muitos pais se sentem impotentes diante das plataformas digitais. Qual postura você defende no livro?
Eu defendo uma postura de curadoria ativa e de construção de critérios. Não é negacionismo tecnológico nem liberação total. É ensinar o filho (e a si mesmo) a perceber quando está sendo capturado, quando está sendo estimulado à reatividade e quando está perdendo a capacidade de se entediar e criar. O algoritmo é extremamente eficiente em gerar engajamento. O pai precisa ser igualmente eficiente em gerar discernimento. O livro oferece caminhos práticos para essa mediação.
Além da influência dos algoritmos na educação, qual outro tema você considera urgente para os próximos livros e para a Escola de Pai?
A construção de legados. Tanto na paternidade quanto na liderança empresarial, estamos vivendo uma geração que precisa aprender a criar sistemas (familiares e profissionais) que sobrevivam a ela. O algoritmo acelera tudo, inclusive a sensação de que nada permanece. Quero explorar, nos próximos trabalhos, como pais e líderes podem cultivar presença, critérios e estruturas que ultrapassem o ciclo de vida de uma plataforma ou de uma tendência. Esse será, provavelmente, o próximo movimento depois do livro sobre algoritmos.
